Relatório da OCDE aponta desafios para atrair e reter professores no Brasil

O Instituto Unibanco analisa os principais achados do Education at a Glance 2026, relatório anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre educação, que traz a escassez de professores como um dos desafios educacionais mais emergentes. O estudo reúne indicadores de 38 países-membros da organização e 11 países parceiros e candidatos à adesão, entre eles o Brasil, e apresenta dados sobre escolaridade, acesso, financiamento, mercado de trabalho e condições de ensino.

A edição de 2026 mostra avanços nos níveis de escolarização em grande parte do mundo, mas também evidencia dificuldades comuns entre os sistemas educacionais, especialmente na capacidade de atrair, formar e manter professores na carreira. Segundo a OCDE, 9,1% dos docentes da Educação Básica nos países da organização não atendem a todos os requisitos nacionais de qualificação para o exercício da profissão. Além disso, um em cada quatro professores do ensino secundário tem 55 anos ou mais, o que tende a ampliar a necessidade de reposição da força de trabalho nos próximos anos.

O relatório destaca que enfrentar esse cenário exige mais do que ampliar a remuneração. Salários competitivos precisam estar associados a melhores condições de trabalho, valorização social, oportunidades de desenvolvimento profissional, formação continuada e uma organização do trabalho que permita maior foco nas atividades pedagógicas.

Na avaliação do superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, os resultados reforçam a necessidade de uma abordagem sistêmica para os desafios educacionais brasileiros. “Embora, no caso do Brasil, o país tenha avançado na ampliação do acesso à escola e da escolaridade da população, os dados indicam que a melhoria dos resultados depende cada vez mais da capacidade de atrair, formar, desenvolver e reter bons professores, além de criar condições para que os jovens concluam a Educação Básica e construam trajetórias bem-sucedidas de inserção social e produtiva”, avalia Henriques.

A valorização docente, assim como a questão da permanência dos estudantes nas escolas e do financiamento na educação, preenche um rol de desafios que o país tem enfrentado nos últimos anos. No campo da docência, 9% dos professores da rede pública não possuíam qualificação completa para o exercício da profissão em 2024/25, resultado próximo à média da OCDE, de 9,1%. O país também apresenta dificuldades para tornar a carreira mais atrativa: 10,3% dos docentes deixaram a profissão, percentual superior à média internacional de 6,4%. Além disso, apenas 44,3% declararam satisfação com suas condições de trabalho e 22,3% com os salários, índices inferiores aos observados nos países da OCDE.

Para Henriques, a escassez de professores não deve ser analisada apenas a partir das dificuldades de contratação das redes de ensino. “O desafio começa antes, na capacidade de tornar a docência uma escolha profissional desejável e sustentável. Isso exige políticas que articulem remuneração, planos de carreira, formação continuada, condições adequadas de trabalho, tempo para planejamento pedagógico e oportunidades concretas de desenvolvimento profissional”, explica o superintendente executivo do Instituto Unibanco. “Precisamos de uma agenda conjunta de atração, formação, distribuição e permanência na carreira. Os dados reforçam que o Brasil não pode tratar a escassez docente como uma simples conta de quantos professores se formam. É preciso saber quem chega à escola, com que formação, para ensinar com qualidade, em que territórios e por quanto tempo consegue permanecer. Valorização salarial, boa formação e condições de trabalho precisam fazer parte da mesma política”, detalha Henriques.

Os dados sobre a carreira docente dialogam com evidências do recém-divulgado Anuário Brasileiro de Educação, lançado neste ano. O levantamento mostra que apenas 14,7% dos ingressantes em cursos de licenciatura em 2024 pertenciam ao grupo dos 20% com melhor desempenho no Enem do ano anterior. Em Direito e Medicina, os percentuais foram de 32,6% e 81,2%, respectivamente.

O Anuário também aponta desafios na formação inicial: apenas 20,2% dos concluintes das licenciaturas avaliadas atingiram nível considerado adequado no Enade/Prova Nacional Docente, enquanto 42,2% ficaram abaixo do nível básico. A leitura conjunta dos estudos reforça que o desafio brasileiro não está apenas em formar mais professores, mas em tornar a carreira capaz de atrair talentos, oferecer formação de qualidade e criar condições para que esses profissionais permaneçam na educação ao longo do tempo.

Escolaridade e permanência dos estudantes
O Education at a Glance 2026 também registra avanços na trajetória educacional brasileira. Entre 2016 e 2024, a proporção de jovens de 25 a 34 anos que não haviam concluído o Ensino Médio caiu de 35% para 26%. Ainda assim, apenas 22% dos brasileiros de 25 a 64 anos (adultos em idade ativa) possuem Ensino Superior completo, cerca da metade da média da OCDE, de 43%.

A permanência na escola continua sendo outro desafio. Um ano após o término do Ensino Fundamental, 8% dos estudantes brasileiros já não estavam matriculados em nenhuma etapa educacional, acima da média internacional de 5%. No Ensino Médio, 79% dos novos ingressantes concluem um programa de formação geral ou profissionalizante em até dois anos após a data prevista para a conclusão, enquanto um em cada cinco abandona a escola sem obter certificação. O levantamento também evidencia desigualdades de gênero: meninas têm probabilidade sete pontos percentuais maior de concluir o Ensino Médio do que os meninos.

Para Ricardo Henriques, ampliar a conclusão da Educação Básica precisa estar associado à aprendizagem e à construção de oportunidades futuras. “Em um mercado de trabalho cada vez mais dinâmico e exigente, concluir o Ensino Médio deixou de ser apenas uma meta educacional e passou a ser condição fundamental para ampliar oportunidades de inclusão produtiva, cidadania e mobilidade social”, diz o superintendente executivo do Instituto Unibanco.

O relatório também aponta desafios relacionados ao financiamento. Embora o Brasil destine à educação 4,5% do PIB, acima da média da OCDE, de 4%, o investimento por estudante permanece distante do observado nos países da organização: em 2023, foram US$ 4.133 por aluno, menos de um terço da média da OCDE, de US$ 13.601.

Nesse contexto, os resultados do Education at a Glance 2026 reforçam a necessidade de políticas integradas de valorização docente, formação e permanência escolar. “Enfrentar a escassez de professores e ampliar as oportunidades educacionais dos jovens são agendas complementares para a construção de um sistema educacional capaz de responder às transformações sociais, econômicas e tecnológicas”, encerra Ricardo Henriques.

Sobre o Instituto Unibanco
O Instituto Unibanco é uma organização sem fins lucrativos que atua pela melhoria da qualidade da educação pública por meio do aprimoramento da gestão educacional. Seu objetivo é contribuir para a permanência dos estudantes na escola, a melhoria da aprendizagem e a redução das desigualdades educacionais. Fundado em 1982, integra o grupo de instituições responsáveis pelo investimento social privado do Itaú Unibanco.