Habilidades socioemocionais ajudam os estudantes a lidar com erros, desafios e responsabilidades

Saber o conteúdo de um componente curricular é suficiente para responder a uma prova, mas não necessariamente para lidar com tudo o que vem depois dela. Uma nota abaixo do esperado, a dificuldade em determinado conteúdo, o acúmulo de tarefas ou a necessidade de tomar uma decisão sem a orientação constante de um professor também fazem parte da trajetória escolar e exigem habilidades que não aparecem em uma apostila.

É nesse espaço entre saber o conteúdo e saber o que fazer com ele que entram competências como autonomia, organização, resiliência e inteligência emocional. “O papel da escola, especialmente hoje, com a democratização do acesso ao conhecimento, é preparar o estudante cada vez mais para a tomada de decisões, lidar com desafios e continuar o aprendizado ao longo da vida”, afirma a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental Anos Finais e Ensino Médio do Colégio Rio Branco, Ana Carolina Han.

Isso não significa deixar o conteúdo acadêmico em segundo plano. Pelo contrário, o conhecimento continua sendo a base para interpretar o mundo, argumentar e resolver problemas. O desafio está em possibilitar que o estudante consiga usar este conhecimento diante de situações novas e complexas.

O que uma nota baixa pode ensinar?
Uma nota abaixo do esperado costuma ser associada ao desempenho, mas também pode revelar algo sobre o próprio processo de aprendizagem. Para a escola, o desafio é evitar que o resultado seja interpretado pelo estudante como um fracasso.

“Não se trata de uma definição da capacidade do aluno, mas sim de uma parte do seu processo de aprendizagem. Nesse contexto em que o aluno se depara com seus acertos e erros, o feedback é uma ferramenta indispensável para que ele possa compreender o que ainda precisa aprender, quais estratégias deve utilizar e que pontos podem ser melhorados”, afirma Ana Carolina.

O objetivo não é diminuir a importância dos resultados, mas utilizá-los como informações para orientar intervenções pedagógicas. “É nesse caminho que a resiliência também é desenvolvida. Quando o estudante se frustra, o professor pode ajudá-lo a olhar para o jeito como estudou, ao invés de fazer o erro parecer sinal de incapacidade”, reforça a coordenadora pedagógica.

Emoção e aprendizagem andam juntas
Ansiedade, frustração e outras emoções fazem parte da experiência escolar e podem interferir na forma como o estudante enfrenta avaliações, dificuldades e outros desafios acadêmicos. Reconhecer o que está sentindo e aprender a administrar essas emoções pode contribuir para a manutenção do foco, da persistência e da abertura para aprender.

“A inteligência emocional interfere diretamente na aprendizagem, pois o estudante precisa reconhecer e administrar suas emoções para conseguir se envolver de maneira produtiva com as atividades”, explica a Ana Carolina.

Para desenvolver essa habilidade, a escola pode criar espaços seguros para que os estudantes reconheçam, nomeiem suas emoções e compreendam como elas influenciam escolhas e comportamentos. Projetos, atividades de reflexão, situações-problema e acompanhamento individual ou coletivo estão entre as estratégias apontadas pela educadora.

O desenvolvimento emocional também repercute na convivência. Empatia, comunicação, escuta e capacidade de resolver conflitos ajudam os estudantes a compreender diferentes perspectivas, expressar ideias com clareza e buscar soluções coletivas.

As competências mudam conforme o estudante cresce
Embora autonomia, organização, resiliência e inteligência emocional estejam presentes em toda a trajetória escolar, a forma como são trabalhadas muda conforme o desenvolvimento do aluno. Na infância, as experiências são mais concretas e contam com maior mediação dos adultos. No Ensino Fundamental, a autonomia aumenta gradualmente. Já no Ensino Médio, crescem a complexidade das decisões e o nível de responsabilidade esperado do estudante.

“A principal alteração nos diferentes estágios do desenvolvimento escolar é o grau de autonomia, complexidade e responsabilidade esperada do estudante, com aumento da complexidade e intencionalidade curricular”, explica Ana Carolina.

A proposta, portanto, é criar oportunidades progressivamente mais complexas para que os estudantes tomem decisões, organizem os próprios estudos, lidem com dificuldades e desenvolvam estratégias para superar obstáculos.

Da escola à universidade e para o futuro profissional
A transição para a universidade torna ainda mais visíveis essas demandas. “Acredito que autonomia, resiliência e organização são de suma importância para essa fase, uma vez que o universitário deve apresentar um maior protagonismo na sua formação, organizando seus estudos, estabelecendo prioridades e buscando ajuda quando necessário”, afirma Ana Carolina.

As competências também são mobilizadas diante das demandas do futuro profissional. Em um cenário de mudanças constantes, lidar com novas situações, administrar prioridades, resolver problemas e tomar decisões exige capacidade de adaptação e flexibilidade. Por isso, o desenvolvimento dessas habilidades não precisa competir com a busca por resultados acadêmicos. “Não se trata de objetivos concorrentes, mas sim de dimensões que se completam no processo de aprendizagem”, conclui a coordenadora.

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