Por Adelir Marinho*
A criança “fala” por meio da imaginação, ela encontra nela possibilidades de expressão que não dependem exclusivamente de palavras. Ela pode construir, desenhar, brincar, dramatizar, inventar personagens, atribuir novos significados aos objetos, criar histórias e situações. Em cada uma dessas experiências, existe uma criança tentando dar forma ao que pensa, sente, deseja, observa ou ainda não consegue nomear.
Talvez uma das funções mais bonitas da imaginação seja permitir à criança experimentar aquilo que ainda não existe e, ao fazê-lo, descobrir que o mundo também pode ser recriado.
A imaginação não coloca a criança fora do mundo. Ao contrário, nasce das experiências que ela vive, das pessoas que conhece, das situações que observa, das histórias que escuta, dos sentimentos que experimenta e das coisas que descobre. É a partir desse repertório que ela combina elementos, transforma significados e cria possibilidades que não estavam prontas diante dela.
Não precisamos encontrar uma explicação escondida para cada produção infantil. Há algo mais amplo acontecendo: a criança está criando. É por isso que uma caixa pode virar uma casa. A criança não desconhece que aquela caixa é uma caixa. Ela consegue atribuir a ela, naquele momento, um novo significado.
E talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes da imaginação infantil: ela permite que aquilo que existe possa também ser outra coisa. Uma cadeira pode ser um ônibus. Um lençol pode ser uma floresta. Um sofá pode ser uma montanha. Uma almofada pode se transformar em um barco. Um pedaço de tecido pode ser uma capa, uma cabana ou qualquer coisa que a imaginação decidir. Um desenho pode abrigar criaturas que nunca existiram. Uma história pode levar a criança para um lugar onde nunca esteve.
Para um adulto, talvez seja apenas uma caixa, uma cadeira, um lençol, um sofá, uma almofada e um pedaço de tecido. Para uma criança, por alguns instantes, o mundo pode ser muito maior. É curioso como, diante dessas cenas tão comuns da infância, muitas vezes olhamos para aquilo que está diante dos nossos olhos e não para aquilo que a criança está criando. Vemos a caixa. Ela vê uma casa. Vemos uma almofada. Ela está navegando. Mas o que acontece nesse espaço entre aquilo que existe e aquilo que a criança imagina? E é justamente ali que uma parte importante da infância acontece.
A criança não imagina porque ainda não compreende a realidade. Ela imagina justamente porque está tentando compreendê-la. Vigotski, ao discutir a imaginação e a criação na infância, nos ajuda a compreender que imaginar não significa produzir algo completamente separado da realidade.
Na infância, criar é uma maneira de conhecer o mundo, porque é a partir daí que ela vivencia: aquilo que já conhece; aquilo que gostaria de conhecer; aquilo que poderia acontecer; aquilo que ainda não existe e até aquilo que ela mesma ainda não sabe explicar.
A imaginação também é uma linguagem. E, quando aprendemos a reconhecê-la, talvez descubramos que compreender uma criança não significa apenas perguntar o que ela sabe dizer sobre o mundo. Significa também estar disposto a conhecer os mundos que ela consegue criar. Porque nem toda brincadeira possui um significado oculto. Nem toda história inventada precisa ser interpretada. Às vezes, uma criança simplesmente está brincando, criando, experimentando. E isso, por si só, já é muito.
Talvez, o nosso desafio seja não perguntar o tempo todo “o que isso quer dizer?”, mas também conseguir perguntar: “Que possibilidades essa criança está criando?”
*Doutora em Educação e pesquisadora da Infância, Adelir Marinho é pedagoga e psicopedagoga, com especializações que conectam tanto a prática quanto o universo da neurociência e da formação docente.
