Entre clássicos e novas vozes: leitura da Fuvest amplia repertório e fortalece olhar crítico de estudantes

Em um cenário em que a leitura disputa espaço com telas e estímulos constantes, o Dia do Livro, celebrado no último dia 23, chega acompanhado de um movimento que reposiciona o papel da literatura na formação dos jovens. A nova lista da Fuvest, composta exclusivamente por autoras mulheres, não apenas gerou debate, ela tem provocado, na prática, mudanças na forma como estudantes leem, interpretam e constroem seu repertório.

O contexto ajuda a dimensionar essa transformação. Dados da pesquisa Retratos da Leitura (2024) mostram que apenas 47% da população brasileira se considera leitora, indicando que mais da metade do país não mantém uma relação frequente com os livros. Mais do que a queda no número de leitores, especialistas apontam uma mudança na forma como a leitura é percebida: cada vez mais associada à obrigação e menos ao prazer.

No Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo, esse cenário encontra um contraponto dentro da sala de aula. A nova lista amplia o repertório dos estudantes e propõe um deslocamento relevante: sair de uma formação centrada majoritariamente no cânone masculino para incluir novas vozes, cenários e perspectivas sobre a sociedade, sem deixar de lado os clássicos que estruturam a base literária.

Entre os títulos estão Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta; Nebulosas, de Narcisa Amália; Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida; Caminho de Pedras, de Rachel de Queiroz; O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andresen; As Meninas, de Lygia Fagundes Telles; Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane; Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo; e A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida.

Para a professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio do Colégio Marista Arquidiocesano, Patrícia Cajai, a mudança vai além de uma atualização de conteúdo. “Existe uma intencionalidade clara de dar visibilidade à voz feminina como protagonista, não apenas como personagem, mas como autora da própria história”, afirma Patrícia.

Ao mesmo tempo, ela reforça que a presença dessas novas autoras não substitui o contato com os nomes clássicos da literatura. “Os clássicos seguem fundamentais. Autores como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade continuam sendo trabalhados ao longo da formação. O que acontece é uma ampliação de repertório, que ajuda a entender melhor a sociedade contemporânea”, diz a professora de Língua Portuguesa.

Segundo a docente, o impacto também atinge o fazer pedagógico. Professores, assim como alunos, precisaram ampliar o próprio repertório para acompanhar a nova proposta, um movimento que forma leitores, mas também quem ensina. Na prática, as obras abrem espaço para discussões contemporâneas, como racismo estrutural, desigualdade social, machismo, patriarcado e ditadura militar, conectando literatura e realidade.

Esse movimento se torna ainda mais relevante diante de outro dado preocupante: cerca de 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Entre os jovens, esse índice também tem crescido, o que reforça o desafio de desenvolver leitura crítica e interpretação aprofundada, habilidades diretamente relacionadas ao desempenho em vestibulares.

A aluna Marina Marchioni, da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Marista Arquidiocesano, vive sua preparação para o vestibular. Estudante do colégio desde os 6 anos, ela já tem um objetivo definido: cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP).

“Querendo ou não, a gente lê as obras aqui no Arquidiocesano desde o 1º ano do Ensino Médio”, conta Marina. No colégio, a lista é trabalhada de forma progressiva: três títulos por ano, com aumento gradual de complexidade. No caso de Marina, a leitura não começou com o vestibular. O hábito surgiu durante a pandemia e segue até hoje. Para ela, ler ocupa um duplo papel: é estudo, mas também é prazer.

Novas vozes, novos olhares
A escolha por autoras exclusivamente femininas gerou debate quando foi anunciada, mas, em sala de aula, tem se traduzido em ampliação de perspectivas. “É muito potente conhecer histórias e realidades diferentes, principalmente de mulheres muitas vezes invisibilizadas. A gente busca entender o contexto de vida da autora, o que ela viveu. Isso muda o nosso olhar”, afirma Marina.

Para a professora, esse deslocamento é central na formação dos estudantes. O contato com narrativas femininas exige um novo tipo de leitura e interpretação, ampliando a capacidade crítica e a compreensão da sociedade. Ao acessar essas vozes, o estudante revisita a história sob outra ótica e amplia sua formação humana.

Entre as obras já trabalhadas, Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane, foi uma das mais marcantes para Marina. Já A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, trouxe outro tipo de desafio. “Não é uma leitura direta. Precisei me apoiar bastante nas aulas. Mas esse processo é muito rico, porque a gente troca interpretações e amplia a compreensão”, explica a aluna do Ensino Médio.

Essa diversidade faz parte da proposta da lista, que combina obras mais acessíveis com outras que demandam maior mediação pedagógica. Para acompanhar a rotina, Marina desenvolveu um método próprio: leitura por capítulos, anotações e apoio em conteúdos complementares. A estratégia inclui também revisitar obras já estudadas. “Não dá para ler de qualquer jeito. É preciso mergulhar. Hoje eu leio com outra maturidade. A interpretação muda”, diz a estudante.

A proposta dialoga diretamente com a formação humana dos estudantes, especialmente ao apresentar realidades distintas das suas. Isso contribui para formar jovens mais sensíveis e conscientes. Esse impacto se conecta diretamente ao futuro profissional, argumenta a estudante. Como mulher, ela também se reconhece na proposta. “Quero trabalhar com Direito, uma área que lida com a vida das pessoas. Essas leituras ajudam a desenvolver sensibilidade e a entender diferentes pontos de vista. Além de ver a USP dando espaço para essas autoras é inspirador. A gente passa a acreditar que também pode chegar lá”, conta Marina.

Ao ampliar as vozes presentes na lista, o vestibular amplia também as possibilidades de formação do projeto de vida dos vestibulandos. “Quando a gente vai além da obrigação da prova, a leitura deixa de ser só conteúdo e passa a fazer parte da formação como pessoa”, conclui a aluna.

Colégio Marista Arquidiocesano
O Colégio Marista Arquidiocesano faz parte da rede de colégios e escolas do Marista Brasil, que está presente em 20 estados brasileiros, atendendo cerca de 100 mil crianças, jovens e adultos em 97 unidades de ensino. Os estudantes recebem formação integral, composta pela tradição dos valores Maristas e pela excelência acadêmica alinhada aos desafios contemporâneos. Por meio de propostas pedagógicas diferenciadas, crianças e jovens desenvolvem conhecimento, pensamento crítico, autonomia e se tornam mais preparados para viver em uma sociedade em constante transformação.