São Paulo sempre foi uma cidade construída por quem chega de fora. Nos últimos 25 anos, a capital contabilizou mais de 500 mil registros de imigrantes internacionais, segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra), da Polícia Federal, analisados pelo Observatório das Migrações em São Paulo, do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo/Unicamp). Parte desse movimento é formada por famílias com crianças e adolescentes, que passam a construir sua vida escolar em outra língua, outra cultura e outra rotina.
Para a sul-coreana Eunyoung Cho, o resultado dessa experiência ficou claro em uma frase do filho mais novo. Seok Dohyung, que na escola ganhou o apelido de Paulo, chegou a São Paulo ainda criança, na primeira vez que a família morou fora da Coreia do Sul. Algum tempo depois, passou a dizer que queria estudar muito para se tornar presidente do Brasil e melhorar o país para todos. Para a mãe, o desejo mostrava o quanto o filho havia se conectado com o lugar onde vivia.
Uma cidade cada vez mais global também na sala de aula
Parte das famílias estrangeiras chega a São Paulo pela realocação de profissionais de empresas globais. Na The British College of Brazil (BCB), escola internacional da capital, estudam hoje 301 crianças e jovens estrangeiros, de 38 nacionalidades. “Ao chegarem a São Paulo, muitas dessas famílias procuram uma escola internacional com o inglês como língua de ensino e uma comunidade formada por diferentes nacionalidades. Para essas famílias, encontrar outros alunos que compartilham sua língua e referências culturais pode facilitar a adaptação dos filhos a um novo país”, afirma o diretor da BCB, Maurice Hartnett.
Para quem chega, a mudança envolve aprender um novo idioma, conhecer um sistema educacional diferente e fazer amigos do zero. Mas também abre espaço para descobertas. “Quando uma criança chega de outro país, ela não está começando uma vida do zero. Nosso papel é fazer com que ela se sinta acolhida e pertencente, ao mesmo tempo em que tem espaço para compartilhar e preservar aquilo que faz parte de quem ela é”, diz Hartnett.
Do futebol ao coral em português
A família de Sung Ran Cho se mudou da Coreia do Sul para São Paulo por causa de uma realocação profissional, com os três filhos: Doha, Juha e Yeha Kim. Na hora de escolher a escola, a principal preocupação da mãe era como as crianças se sentiriam no novo ambiente. A família buscava um lugar próximo e pessoal, em que cada filho recebesse atenção individualizada.
No início, estudar em uma língua estrangeira e em um ambiente desconhecido foi desafiador. Com o tempo, segundo a mãe, os três ganharam confiança e desenvolveram um forte sentimento de pertencimento, apoiados na proximidade com professores e colegas. A integração também aconteceu fora da sala de aula. Um dos filhos descobriu a paixão pelo futebol nas atividades com os amigos. A própria Sung Ran Cho passou a participar ativamente da comunidade de pais e chegou a cantar em português no coral de famílias durante um festival da escola.
Na BCB, esse processo é apoiado por estratégias como o Buddy System, em que novos estudantes são acompanhados por colegas da mesma nacionalidade durante a adaptação. A escola também oferece suporte pedagógico e psicológico individualizado e aulas particulares para quem precisa desenvolver o inglês. Eventos, feiras e projetos sociais estimulam a convivência entre estudantes de diferentes origens.
Adaptação de calendário
Outro aspecto da adaptação é o calendário. No Brasil, o ano letivo costuma começar entre janeiro e fevereiro. Em países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, as aulas geralmente começam no segundo semestre. Como a BCB segue o currículo nacional britânico, a escola adota o calendário ao qual a maioria de seus alunos já está acostumada. Isso também permite acompanhar os prazos de inscrição em universidades no exterior. “Como a maioria dos nossos alunos são estrangeiros, nossa solução foi adaptar o calendário escolar ao modelo ao qual eles já estão acostumados”, explica Hartnett.
Escolas internacionais podem adotar calendários diferentes, desde que cumpram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A lei exige ao menos 200 dias letivos por ano e carga horária mínima de 800 horas no Ensino Fundamental e de 1.000 horas no Ensino Médio.
