Por Fernanda Silveira*
Na infância, o brincar é uma experiência fundamental para o desenvolvimento infantil, especialmente o brincar simbólico, o conhecido “faz de conta”, em que a criança exercita a criatividade, interpreta o mundo ao seu redor, expressa emoções, experimenta diferentes papéis sociais e constrói conhecimentos sobre si e sobre os outros. Enquanto brinca, é possível organizar pensamentos, criar hipóteses, negociar sentidos e desenvolver autonomia, experiências que favorecem aprendizagens profundas e contribuem para as formações cognitiva, emocional e social.
Nesse processo, os materiais não estruturados ocupam um papel essencial, pois, diferentemente dos brinquedos que já apresentam uma função definida, eles convidam à exploração e à imaginação. Ao manipular materiais não estruturados, a criança transforma, inventa, experimenta e atribui diferentes significados. Um tecido, por exemplo, pode virar capa, cabana ou mar. Uma caixa, por sua vez, pode se transformar em foguete, casa ou carrinho. Sejam caixas, tecidos, elementos da natureza, pedaços de madeira, potes, argolas, sementes ou sucatas, as possibilidades são infinitas para a imaginação infantil.
A importância do direito de brincar na infância
A relevância da brincadeira é reconhecida também no campo educacional. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o brincar é um dos seis direitos de aprendizagem que devem ser assegurados em creches e pré-escolas pelo Brasil. Nessa perspectiva, as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) definem que nos eixos estruturantes das práticas pedagógicas, durante a etapa da Educação Básica, as interações e as brincadeiras são experiências nas quais as crianças podem construir e apropriar-se de conhecimentos por meio de suas ações e interações com seus pares e com os adultos, o que possibilita aprendizagens, desenvolve habilidades e favorece vínculos sociais.
No campo científico, atividades lúdicas são um aspecto de desenvolvimento infantil e saúde mental fortemente estudados e analisados por cientistas. Segundo um estudo da Universidade de Cambridge, realizado com 1.700 crianças de 3 e 7 anos de idade, crianças com melhor capacidade de interação com os colegas aos 3 anos apresentaram menos sinais de problemas de saúde mental quatro anos depois. Os efeitos com atividades que promovem o compartilhamento têm benefícios indiretos positivos durante a primeira infância.
Como o uso excessivo de telas pode impactar o desenvolvimento infantil?
O impacto das telas é um ponto importante que pode impactar o desenvolvimento do brincar simbólico e do “faz de conta”, principalmente devido aos estímulos rápidos e constantes, que podem reduzir as oportunidades de criar, esperar, investigar e brincar livremente, prejudicando a interação social e o desenvolvimento da fala, além da concentração e da rotina de sono.
Dados da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas. Entre aquelas de 4 a 6 anos, esse percentual chega a 94%. Os números reforçam um cenário que contrasta com as recomendações de especialistas, que alertam para a necessidade de equilibrar o uso da tecnologia com vivência e relações presenciais.
Nesse contexto, os brinquedos não prontos aparecem como um contraponto importante a essa lógica, pois desaceleram a experiência infantil e devolvem à criança o protagonismo da brincadeira.
O brincar simbólico que estimula a imaginação e criatividade
O psicólogo e pensador Lev Vygotsky destacou a importância do brincar simbólico para o desenvolvimento infantil. Segundo sua perspectiva, ao brincar, a criança amplia sua capacidade de imaginar, representar o mundo e construir aprendizagens que ultrapassam aquilo que conseguiria realizar sozinha. Nessa percepção, atividades lúdicas são essenciais, reforçando a importância da criatividade nessa fase, pois, quanto mais o brinquedo faz, menos a criança precisa fazer.
A inteligência da criança se constrói na ação, na exploração e nas experiências sensório-motoras vividas com o corpo e com o ambiente. Em dias muito marcados pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela antecipação da vida adulta, defender o brincar livre é também defender o direito da criança de viver plenamente sua infância.
*Coordenadora pedagógica da unidade do Rio de Janeiro da Rede de Colégios Santa Marcelina, instituição que alia tradição à uma proposta educacional sociointeracionista e alinhada às principais tendências do mercado de educação.
