Parceria, estrutura e sustentação emocional: o papel dos pais na preparação dos filhos para os vestibulares

À medida que os vestibulares se aproximam, a rotina dos estudantes tende a ficar mais intensa e a pressão por resultados também. Mais horas de estudo, dificuldade para fazer pausas, alterações no sono e na alimentação, irritabilidade e até a sensação de que nunca estudou o suficiente podem aparecer nesse período. Em casa, o desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre acompanhar a preparação e não transformar cada conversa em uma cobrança sobre desempenho.

Para a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Finais e do Ensino Médio do Colégio Rio Branco, Ana Maris Goulart, a família deve funcionar como uma base de segurança para o estudante. “O papel da família nessa fase é ser um porto seguro, oferecendo. O adolescente precisa sentir que existe um adulto disponível, não alguém constantemente fiscalizando seu desempenho”, explica Ana Maris.

Isso significa que perguntas sobre quantas horas foram estudadas ou quantas questões foram resolvidas podem dar lugar a conversas que estimulem a autonomia. “Em vez de perguntar ‘Quanto você estudou?’, é possível perguntar ‘Como você está se sentindo?’, ‘Existe alguma coisa em que eu possa ajudá-lo?’ ou ‘Em que você acha que precisa focar nesta semana?’”, orienta a educadora.

O mesmo vale para o acompanhamento de notas e simulados. Segundo Ana Maris, esses resultados podem ser importantes quando ajudam o estudante a entender suas dificuldades e ajustar a preparação, mas deixam de contribuir quando se transformam em vigilância constante. “Um simulado pode ajudar o estudante a identificar conteúdos e habilidades que precisam de atenção, compreender sua gestão de tempo e ajustar estratégias. Os erros devem ser transformados em informação pedagógica”, afirma a coordenadora pedagógica do Colégio Rio Branco.

Apoio também passa por entender as diferenças entre as provas
Na reta final, também é importante que a família compreenda que cada vestibular possui características próprias e que a preparação do estudante pode precisar se adaptar a elas. Os pais podem ajudar o jovem a identificar quais são as prioridades de cada processo seletivo e oferecer condições para que ele organize a própria rotina.

Provas como o Enem exigem, além do domínio dos conteúdos, capacidade de interpretação, gerenciamento do tempo e resistência para lidar com um grande volume de questões. Já vestibulares como a Fuvest cobram maior rigor conceitual e precisão acadêmica, além de, na segunda fase, exigirem respostas discursivas e redação. Há ainda processos seletivos com formatos específicos, como entrevistas, exames orais e estudos de caso. “Na reta final, a preparação precisa ser customizada de acordo com as particularidades de cada prova. Não basta dominar o conteúdo acadêmico; o estudante precisa desenvolver competências estratégicas para o tipo de prova que irá enfrentar”, destaca Ana Maris.

Nesse cenário, a família pode contribuir sem assumir o planejamento dos estudos. Perguntas como “Qual é a sua prioridade nesta semana?” ou “Você precisa de ajuda?” podem ser mais produtivas do que apresentar uma lista de tarefas. “A estratégia acadêmica deve ser construída em diálogo com o próprio estudante e, quando possível, com os profissionais que acompanham sua preparação”, orienta a coordenadora.

Na Fuvest 2027, por exemplo, a primeira fase terá 80 questões de múltipla escolha, mantendo cinco horas de prova. A segunda fase será composta por 10 questões de Português e uma redação, seguidas, no dia seguinte, por 12 questões específicas relacionadas à carreira escolhida. Para a coordenadora pedagógica, conhecer essas características ajuda o estudante a direcionar os estudos, enquanto a família pode oferecer suporte sem transformar esse acompanhamento em fiscalização.

A redação também exige atenção especial. Com a possibilidade de diferentes gêneros textuais, a preparação não deve se limitar à reprodução de um modelo pronto. “A preparação exige que o jovem desenvolva flexibilidade de escrita, repertório cultural sólido e capacidade de adaptar sua escrita, estilo e vocabulário a diferentes interlocutores e contextos”, explica Ana Maris.

Menos cobrança, mais presença
Para além dos estudos, preservar sono, alimentação, atividade física e momentos de descanso fazem parte da preparação. A família pode ajudar a manter essas condições. Segundo a educadora, a casa deve ser também um espaço em que o vestibular deixe de ocupar o centro das atenções. “O ambiente doméstico deve funcionar como um ponto de descompressão e refúgio em relação à rotina escolar. É fundamental evitar que o tema ‘vestibular e escolha de carreira’ domine todas as conversas da casa”, ressalta a coordenadora pedagógica.

A orientação para os responsáveis é que observem a própria ansiedade diante do processo. “Os filhos costumam ‘sentir’ o estado emocional dos adultos à sua volta mesmo quando nada é dito sobre o assunto. Um adulto mais calmo ajuda o estudante a ficar mais tranquilo também”, conclui a Ana Maris.

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