Aprendizagem contínua e o papel da escola no preparo dos estudantes para o futuro

Por Filipe Ribas*

Na escola, as transformações provocadas pela tecnologia alteraram consideravelmente diversos processos de aprendizagem. Métodos integrados como gamificação, e-books, aplicativos móveis e conteúdo multimídia surgiram como apoio para tornar a aprendizagem contínua e adaptada à nova realidade. A mesma tecnologia que trouxe esses recursos, porém, segue provocando mudanças e gera novos desafios para as expectativas dos estudantes em relação ao plano de carreira.

O estudo do Institute for the Future (IFTF), encomendado pela Dell Technologies, projeta que, com o avanço tecnológico, aproximadamente 85% das profissões que existirão em 2030 ainda não foram inventadas. Os especialistas indicam que a tecnologia não deve substituir os profissionais, mas sim alterar principalmente a maneira de buscar trabalho. Nesse cenário, como preparar os estudantes por meio da aprendizagem contínua?

A necessidade de transformação da metodologia educacional
Nos últimos anos, o mercado de trabalho tem mudado mais rapidamente do que a escola consegue acompanhar, e a aprendizagem contínua entra justamente para reduzir essa distância. No geral, o principal problema está no modelo educacional, cuja estrutura foi pensada para um mundo com menos alteração de rota e hoje precisa dar conta de carreiras que mudam de forma várias vezes.

A escola mediu, durante anos, seu sucesso exclusivamente pela quantidade de conteúdo transmitido. Em um cenário no qual ferramentas, processos e até carreiras se transformam em poucos anos, o conhecimento técnico exige atualização constante, e essa mudança pede uma revisão profunda das prioridades da educação.

Se sistemas de inteligência artificial assumirem grande parte das tarefas repetitivas, o diferencial humano estará nas competências que dificilmente podem ser automatizadas, como pensamento crítico, criatividade, curiosidade, capacidade de resolver problemas, comunicação, empatia e inteligência socioemocional.

Dessa forma, a principal competência passa a ser formular boas perguntas, buscar novas informações e conectar conhecimentos por meio da aprendizagem contínua. É o que permite ao estudante se tornar um profissional capaz de trabalhar em parceria com a tecnologia.

Aprendizagem contínua e o impacto emocional das transformações aceleradas
A velocidade das mudanças gera ansiedade, especialmente entre os jovens que precisam decidir seus caminhos profissionais diante de tantas incertezas. Segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), quase 40% dos jovens de 15 anos não sabem definir suas expectativas sobre a futura carreira.

Nesse sentido, iniciativas que tenham como objetivo estimular o desenvolvimento socioemocional dos estudantes, de maneira criativa e eficaz, se tornam instrumentos fundamentais para uma aprendizagem contínua, que ajuda o estudante a refletir sobre seus interesses, valores, competências e possibilidades.

A trajetória passa a ser tratada como uma construção flexível e consistente, capaz de se adaptar às mudanças inevitáveis do percurso. Assim, quando o futuro entra como tema de reflexão dentro da escola, o estudante passa a tratar a incerteza como parte natural da construção profissional.

Formação integral, pensamento crítico e aprendizagem contínua
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi criada para direcionar a educação básica brasileira na aplicação de competências voltadas à formação integral dos estudantes. É nessa etapa que eles precisam ser estimulados a pensar de forma interdisciplinar, relacionando diferentes áreas do conhecimento e compreendendo que os grandes desafios atuais dificilmente serão resolvidos por um único componente curricular. Dessa maneira, as escolas que buscam preparar seus estudantes para esse futuro integram ao cotidiano escolar debates sobre inovação, desenvolvimento de competências socioemocionais, projeto de vida e experiências práticas com tecnologia.

Essas estratégias são fundamentais para um modelo de educação voltado a formar pessoas capazes de criar seu próprio espaço em um mercado em constante transformação, com autonomia para aprender de forma contínua ao longo de toda a carreira.

*Filipe Pedroso Ribas é coordenador pedagógico do Colégio Santa Marcelina – Unidade de Piraí do Sul (PR).