Por Teresa Catta-Preta*
Aprender duas línguas confunde a criança? Pode atrasar a fala? É melhor esperar que ela domine o português antes de começar o inglês? Essas são dúvidas comuns entre mães e pais quando o assunto é bilinguismo na infância. A boa notícia é que as evidências científicas mostram que o cérebro infantil é capaz de lidar com mais de um idioma desde muito cedo — e aprender duas línguas não significa simplesmente colocar “informação em dobro” em uma mente pequena.
Desde os primeiros meses de vida, os bebês estão atentos à linguagem ao seu redor. Muito antes de pronunciarem as primeiras palavras, eles observam rostos, acompanham entonações, percebem ritmos e começam a identificar os sons que fazem parte das línguas às quais estão expostos. Aos poucos, o cérebro vai se especializando nos padrões sonoros que escuta com maior frequência.
Esse processo está relacionado à grande neuroplasticidade dos primeiros anos de vida, isto é, à capacidade do cérebro de formar e reorganizar conexões a partir das experiências. Na aprendizagem de línguas, isso significa que a infância oferece condições especialmente favoráveis para que sons, ritmos, palavras e estruturas linguísticas sejam incorporados de maneira natural durante o período sensível.
Existe uma idade ideal para aprender outra língua?
Os pesquisadores costumam falar em períodos sensíveis para a aprendizagem da linguagem. Isso não significa que exista uma “janela” que se fecha de repente e torne impossível aprender outro idioma depois de determinada idade. Pessoas podem aprender novas línguas na adolescência e na vida adulta — e chegar a níveis muito altos de proficiência.
A diferença é que, durante a infância, o cérebro apresenta uma sensibilidade particularmente grande a determinados aspectos da linguagem, especialmente aos seus sons e padrões. A exposição precoce pode favorecer, por exemplo, a percepção de contrastes sonoros e uma pronúncia mais próxima daquela encontrada entre falantes que convivem com a língua desde pequenos.
Nos primeiros anos, a criança também aprende de um modo muito diferente do adulto. Ela não precisa, necessariamente, de explicações sobre regras gramaticais para começar a compreender como uma língua funciona. Aprende ouvindo, observando, experimentando, imitando, repetindo e, principalmente, interagindo.
Por isso, começar cedo pode ser uma oportunidade valiosa — não porque seja preciso “acelerar” o desenvolvimento ou transformar os primeiros anos em uma corrida por conhecimento, mas porque uma segunda língua pode ser incorporada às experiências que já fazem parte da infância.
Aprender brincando não é “só brincar”
Na primeira infância, brincar é uma das principais formas de aprender. Quando a criança canta, dança, acompanha uma história, manipula objetos, observa imagens ou participa de uma brincadeira, diferentes informações podem ser combinadas em uma mesma experiência.
Para um bebê de 8 meses, naturalmente, aprender inglês não significa memorizar listas de palavras ou ser solicitado a repetir conteúdo. O contato acontece por meio da voz, da musicalidade, dos gestos, das expressões faciais, do movimento e da interação com o adulto. Conforme a criança cresce, as possibilidades de participação também se ampliam: ela passa a compreender comandos, antecipar trechos de músicas e histórias, nomear elementos, responder perguntas e, gradualmente, utilizar palavras e frases espontaneamente.
Assim, o inglês aparece associado a situações com significado para a criança, respeitando sua idade, seu desenvolvimento e seu modo de aprender.
O papel da Família
Famílias interessadas em proporcionar uma segunda língua aos filhos não precisam transformar a casa em uma sala de aula — nem dominar perfeitamente o inglês para valorizar esse aprendizado. Demonstrar interesse, perguntar sobre uma música ou história, celebrar uma palavra nova e permitir que a criança compartilhe o que aprendeu já são formas de reconhecer aquela experiência.
Também não é necessário pressionar a criança para que “mostre” o que sabe. Muitas vezes, a compreensão vem antes da fala. Uma criança pode passar um período ouvindo e entendendo cada vez mais antes de começar a utilizar espontaneamente palavras e expressões no novo idioma.
Cada criança tem seu ritmo e a aprendizagem de uma língua é um processo construído ao longo do tempo. Mais importante do que buscar resultados imediatos é oferecer regularidade, oportunidades de interação e experiências positivas com o idioma.
A infância, portanto, é um período especialmente fértil para o contato com diferentes línguas. Não porque exista uma corrida contra o relógio, mas porque o cérebro infantil está intensamente aberto a aprender a partir daquilo que a criança vive, escuta, observa e compartilha. Quando uma segunda língua aparece nesse universo de forma natural, frequente e adequada à idade, ela deixa de ser apenas um conteúdo a ser estudado. Torna-se mais uma maneira de brincar, compreender, se comunicar e descobrir o mundo.
O maior benefício da aprendizagem de um segundo idioma na primeira infância não está em aprender nova palavra. Está em oferecer experiências que fortaleçam conexões neurais, desenvolvam a comunicação, estimulem a flexibilidade cognitiva e construam uma relação efetiva e natural com a nova língua.
*A educadora Teresa Catta-Preta fundou a Learning Fun em 1997, após estudar a Teoria das Múltiplas Inteligências de Howard Gardner na Riverside University, Califórnia. Sua visão pioneira transformou o ensino bilíngue infantil no Brasil. A proposta pedagógica da Learning Fun integra a aquisição do segundo idioma à exploração de temas fundamentais. Através de projetos multidisciplinares, as crianças aprendem inglês de forma prática e lúdica, conectando o idioma à matemática, às artes, às ciências e ao cotidiano, promovendo a plasticidade neuronal e o bilinguismo de maneira totalmente afetiva e natural.
