Autoconhecimento e propósito: o papel do projeto de vida na formação dos alunos

Por Alexandra Xavier*

O Ensino Médio é uma das etapas mais desafiadoras da trajetória escolar, tanto pelas exigências acadêmicas quanto pelo período de descobertas, transformações e decisões que podem influenciar o futuro dos estudantes. Nesse contexto, o projeto de vida entra no currículo para estimular o autoconhecimento, a autonomia e a construção de perspectivas alinhadas aos interesses e valores de cada jovem.

A relevância do tema aparece nos dados sobre os desafios enfrentados pelos adolescentes, como mostra o levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado em 2025 com jovens de 30 países. O estudo apontou que cerca de 40% dos estudantes de 15 anos não conseguem definir suas expectativas sobre a futura carreira profissional. O número mostra as incertezas que cercam esse momento da vida e a necessidade de oferecer apoio e orientação durante a construção dos projetos de futuro.

Diante disso, quando a escolha profissional é acompanhada por cobranças excessivas e pela busca da chamada “decisão certa”, os impactos podem atingir, além do campo acadêmico, o bem-estar emocional dos jovens. Dessa forma, o projeto de vida funciona como instrumento de formação integral, já que organiza o planejamento e, ao mesmo tempo, ajuda o estudante a encontrar sentido em suas escolhas e a desenvolver uma relação mais saudável com o próprio futuro.

Impactos da pressão, insegurança e ansiedade na saúde emocional
A fase final da Educação Básica costuma concentrar expectativas familiares, sociais e acadêmicas, e essa cobrança, somada ao medo de errar, está entre os fatores que mais prejudicam os estudantes. No campo da saúde mental, isso aparece em esgotamento emocional, crises de ansiedade, noites mal dormidas e sentimento de impotência, com reflexo direto no desempenho escolar, porque a preocupação constante dificulta a concentração, a retenção de informações e a tomada de decisões. A ansiedade desgasta a atenção do estudante e derruba o rendimento mesmo quando a capacidade intelectual permanece intacta, já que falta espaço emocional para aprender.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com a Fundação Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), em cinco estados brasileiros, aponta que 79% dos estudantes na etapa final do Ensino Médio apresentam algum sintoma de depressão ou ansiedade. Além disso, 20,4% indicaram se sentir bastante ou totalmente infelizes ou deprimidos, o que dá a dimensão do desgaste emocional acumulado nesse ciclo.

Diante desse cenário, o trabalho com projeto de vida serve de apoio ao autoconhecimento e ao desenvolvimento socioemocional, duas frentes que sustentam a escolha de carreira.

Projeto de vida para o autoconhecimento e desenvolvimento emocional
O projeto de vida trata da escolha profissional e também de outras dimensões do futuro, já que incentiva o estudante a compreender seus interesses, habilidades e sonhos, o que fortalece sua capacidade de tomar decisões de forma autônoma e responsável.

Esse percurso se torna mais significativo quando é desenvolvido em um ambiente acolhedor, que respeita os diferentes ritmos e trajetórias. Ações como orientação vocacional, pesquisas sobre profissões, contato com profissionais de diversas áreas e atividades de reflexão contribuem para ampliar repertórios, além de oferecer referências concretas para a construção dos projetos pessoais. A família também exerce uma função decisiva ao conceder apoio, diálogo e segurança emocional, fortalecendo a confiança necessária para enfrentar os desafios dessa etapa.

A soma do trabalho da escola e do apoio da família contribui para esse desenvolvimento e permite que o estudante amplie o repertório com mais confiança, diálogo, autonomia e responsabilidade, no ritmo que consegue acompanhar e dentro do campo de conhecimento que passa a reconhecer como seu.

*Psicóloga e orientadora educacional do Colégio Santa Marcelina – Unidade Muriaé, instituição que alia tradição à uma proposta educacional sociointeracionista e alinhada às principais tendências do mercado de educação.

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