Por Camila Cordeiro Ribeiro*
O estímulo à educação bilíngue na infância oferece múltiplos benefícios para o desenvolvimento infantil, visto que o contato precoce com outro idioma favorece o desenvolvimento cognitivo e amplia as possibilidades de interação e compreensão da linguagem.
Nos últimos anos, a educação bilíngue tem conquistado espaço no cenário educacional brasileiro, é o que aponta um levantamento da Associação Brasileira de Ensino Bilíngue (Abebi). Segundo o estudo, em 2024, o Brasil alcançou a quantidade de 1,2 mil escolas de ensino bilíngue, representando um crescimento de 10% em cinco anos. O dado reflete o interesse crescente das famílias por uma formação que vai além da aprendizagem de um novo idioma, mas que contribua para o desenvolvimento integral das crianças.
Educação bilíngue no desenvolvimento educacional
A primeira infância é um período especialmente favorável para a aprendizagem de idiomas. Nessa fase, o cérebro apresenta elevada plasticidade, facilitando a assimilação de diferentes estruturas linguísticas. No entanto, é natural que crianças expostas a dois idiomas simultaneamente misturem palavras ou expressem ideias utilizando elementos de ambas as línguas em uma mesma frase. Esse fenômeno, conhecido como code-switching, faz parte do processo de aprendizagem e demonstra que a criança está mobilizando diferentes recursos linguísticos para se comunicar.
Para que esse processo aconteça de forma consistente, é importante que a criança tenha contato com diferentes contextos de uso de cada idioma. É fundamental estabelecer estratégias de diálogo entre pais e professores, assim é possível definir como será a separação dos idiomas em cada ambiente, seja escolar ou familiar, ou por pessoas com quem a criança tenha interação.
Outro aspecto importante é a maneira como os erros são tratados durante a aprendizagem. O processo de aquisição da linguagem envolve experimentação e construção gradual do conhecimento. Por isso, correções devem ocorrer de forma acolhedora, incentivando sua participação nas interações comunicativas de forma natural.
Também é essencial ampliar o repertório linguístico por meio de experiências, seja por meio de livros, músicas, filmes, brincadeiras ou conversas que contribuam para aproximar a criança do idioma de forma natural. Estratégias como contação de histórias, por exemplo, favorecem o desenvolvimento e a compreensão oral, incentivando a imaginação e a capacidade de construir narrativas, enquanto as músicas auxiliam na memorização do vocabulário e estruturas linguísticas.
Além dos benefícios relacionados à linguagem, a educação bilíngue contribui para ganhos cognitivos e gera uma percepção de mundo completamente diferente, favorecendo a empatia e sensibilidade intercultural, preparando o estudante para um mundo cada vez mais globalizado, ampliando o contato com a língua para um contato com outra cultura.
Desafios da educação infantil bilíngue
Implementar uma proposta de educação bilíngue exige planejamento pedagógico, formação docente e adaptação de conteúdo para diferentes contextos culturais, é necessário construir experiências de aprendizagem que façam sentido para a realidade dos estudantes. A educadora Ofelia García, uma das principais especialistas sobre multilinguismo, defende a valorização do repertório linguístico como parte fundamental do processo educativo. Para ela, o ensino deve reconhecer línguas e culturas presentes na trajetória dos estudantes, favorecendo uma aprendizagem mais significativa e equitativa, o que implica diretamente em melhores condições de aprendizagem e maior engajamento dos estudantes com o currículo como um todo.
Dessa forma, utilizar metodologias como ferramentas de apoio pedagógico é uma maneira de conseguir superar desafios na educação bilíngue. Métodos como o CLIL (Content and Language Integrated Learning), reconhecido como uma abordagem que integra idioma ao conteúdo de áreas do conhecimento, potencializando a aprendizagem e tornando o processo mais contextualizado e conectado às experiências dos estudantes.
A tecnologia também pode atuar como recurso complementar, oferecendo oportunidades de contato com diferentes idiomas por meio de plataformas, aplicativos e conteúdos digitais. No entanto, nenhuma ferramenta substitui a riqueza das interações humanas, por isso, a participação da família continua sendo um elemento fundamental para fortalecer o interesse pela língua, estimular a comunicação e promover conexões culturais significativas. É fundamental preparar crianças para um mundo que exige cada vez mais a capacidade de se comunicar, compreender e respeitar o diferente, tornando assim cidadãos capazes de habitar um mundo diverso, plural e interconectado.
*Camila Cordeiro Ribeiro é Coordenadora Pedagógica Bilíngue dos Anos Iniciais, da unidade de Muriaé da Rede de Colégios Santa Marcelina, instituição que alia tradição à uma proposta educacional sociointeracionista e alinhada às principais tendências do mercado de educação.
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