A relação de crianças e adolescentes com a tecnologia tem sido um dos principais temas de discussão na educação e no desenvolvimento infantil. Desde o surgimento da Internet, o contato precoce e a exposição excessiva às telas têm levado a consequências negativas, como a chamada fadiga digital.
“É muito importante observar alterações no sono, episódios frequentes de dor de cabeça, que estão muito ligados ao tempo em que a criança fica exposta à luz das telas e até mesmo à diminuição do piscar de olhos, dificuldade para acordar, a perda do interesse em atividades com os colegas que são feitas presencialmente, ao vivo e a cores, e um isolamento maior”, explica a especialista em Tecnologia e Inovação da Beacon School, Agnes Nicola.
O estresse causado pelo excesso de estímulos digitais pode se manifestar de diferentes formas e reforça o papel conjunto da escola e das famílias na construção de hábitos saudáveis, equilibrando os benefícios da tecnologia com momentos de interação, descanso e aprendizagem significativa. Desde que bem selecionados, os conteúdos digitais podem ser aliados e servem de ferramentas de investigação e aprendizado.
Segundo Agnes, a questão é a intencionalidade do uso. “Não é necessariamente ruim assistir a vídeos, mas há diferença entre assistir de maneira automática por horas e horas e escolher um determinado conteúdo que depois você vai conversar sobre ele, relacionar com os interesses da criança, que vai ser usado como ponto de partida para uma atividade. A pergunta-chave é: a tecnologia está estimulando o processo de criação, curiosidade, vínculo e autonomia ou está apenas mantendo a criança entretida por aquele dispositivo?”, diz a especialista.
Inevitavelmente, a tecnologia já faz parte do dia a dia das pessoas, e, por esse motivo, pais e filhos precisam estabelecer juntos critérios de uso mais adequado. E é nesse sentido que usar a coerência é importante. “Não adianta esperarmos e cobramos a autorregulação dos nossos filhos, se nós mesmos estamos permanentemente no celular, sendo interrompidos por notificações, respondendo mensagens à mesa, enquanto se está em família, e interrompendo conversas. A família, o principal modelo de educação, pode e deve estabelecer alguns combinados simples, como momentos sem telas, horários, que tipo de uso que será feito acompanhado em algumas plataformas. O objetivo não é criar medo, mas trazer letramento. Não é o que pode ou não pode, mas sim, para que você usa, por quanto tempo, com quem e quais as consequências”, comenta Agnes.
A especialista em Tecnologia e Inovação da Beacon School propõe, também, um hábito simples para estimular a autorregulagem do tempo gasto na Internet: fazer pausas conscientes antes de usar algum aplicativo. “Por exemplo, quer abrir agora o TikTok, então espere alguns segundos antes de abrir, para realmente você mentalizar porque está abrindo, o que está procurando, o que vai fazer, estabelecer o tempo que quer ficar naquela plataforma, isso vai fazer, aos poucos, você auto-observar o tempo em que está passando conectado”, ensina Agnes.
Segundo a especialista, o pensamento crítico talvez seja uma das principais formas de proteção para o indivíduo, especialmente no ambiente digital. Uma pessoa com pensamento crítico vai entender que aquilo que está sendo imposto ali, pelas telas, é apenas um recorte, e não uma representação neutra da realidade. “Muitas vezes, são ambientes editados, mais recentemente mediados por algoritmos que têm por trás interesses econômicos ou vieses de treinamento, por exemplo, e estratégias de engajamento muito bem concebidas para manter o público ativo nessas plataformas, com recortes muito específicos da vida das pessoas que nem sempre condizem com a realidade”, lembra Agnes.
Quase que inevitavelmente, a exposição excessiva às telas proporciona, também, o uso exacerbado das redes sociais, as quais, muitas vezes, distorcem a realidade e afetam a percepção que o jovem tem do mundo. Como a adolescência é uma fase marcada pela busca por aprovação, as mídias sociais podem criar um ciclo de frustrações, e o jovem vai necessitar de apoio para conseguir compreender o que é real ou não.
“É preciso trabalhar muito a autoestima desse jovem, porque quando ele tem espaços reais em que se sente pertencido, reconhecido e pode conversar, fica muito menos dependente da validação instantânea que as redes sociais oferecem. O adolescente passa a olhar a tecnologia como parte da vida dele, mas deixa de ser o principal espelho de valor pessoal para ele”, explica Agnes.
É possível construir uma relação saudável com os meios tecnológicos. Para isso, é imprescindível promover discussões relevantes sobre os desafios da educação contemporânea e pensar maneiras de contribuir para que estudantes utilizem os recursos digitais de forma responsável e crítica.
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