Entre telas e brincadeiras: os desafios da infância contemporânea

O contato de crianças com equipamentos eletrônicos como smartphones, tablets e com plataformas digitais está começando cada vez mais cedo no Brasil. Segundo o levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos utilizavam internet, percentual que saltou para 44% em 2024. Entre as faixas de 3 a 5 anos e 6 a 8 anos, os índices passaram de 26% para 71% e de 41% para 82%, respectivamente, no mesmo período.

A seguir, especialistas da Escola Móbile detalham os efeitos das brincadeiras no desenvolvimento das crianças e os riscos do avanço precoce da tecnologia e mostram que a resposta para essa questão pode ser algo tão simples como a brincadeira.

O brincar e o desenvolvimento infantil: o que a ciência e a prática mostram
Para a professora Maria de Remédios Cardoso, diretora pedagógica da Educação Infantil do Programa Regular da Escola Móbile, o brincar contribui para estruturar o cérebro infantil de uma forma que nenhuma tela consegue replicar. “Brincar é essencial, pois, diferentemente das telas, que muitas vezes oferecem estímulos passivos e recompensas rápidas de dopamina, é ativo, o que auxilia na estruturação do cérebro infantil ainda em formação. As telas colocam a criança no papel de espectadora, já o brincar devolve a ela o papel de protagonista”, afirma a diretora.

Segundo Maria, as habilidades desenvolvidas durante as brincadeiras incluem resolução de problemas, memória, linguagem, planejamento, criatividade, flexibilidade, autorregulação, controle inibitório e empatia. “Brincando, a criança movimenta o corpo, manipula objetos, ativa áreas do cérebro ligadas à coordenação motora fina e global, à percepção espacial, trabalha com a resolução de problemas junto a seus pares, aprende noções de tamanho, forma. É também por meio das brincadeiras que a criança aprende a ler e escrever ou faz, por exemplo, experimentos físicos, a partir dos quais começa a entender descobre que a ciência é muito mais simples e fascinante do que ela imaginava”, completa a professora.

A diretora pedagógica do Programa Bilíngue da Escola Móbile, Tatiana Almendra, reforça que o brincar pode ser uma atividade de alta complexidade cognitiva. “Em uma brincadeira de construção, por exemplo, a criança formula hipóteses, planeja, testa possibilidades e revisa estratégias quando algo não funciona como imaginava. Já nas brincadeiras em grupo, aprende a negociar regras, esperar a sua vez, lidar com frustrações, argumentar, cooperar e resolver conflitos. Enquanto brinca, a criança pensa, cria, se comunica, movimenta o corpo e aprende sobre si, sobre o outro e sobre o mundo”, afirma Tatiana.

A Pedagogia do Brincar na prática
Tatiana Almendra explica que, na Educação Infantil, a brincadeira e a ludicidade permeiam toda a rotina escolar e por isso o brincar deve ser o eixo central da proposta pedagógica, não um intervalo entre atividades. “Na Móbile, o brincar atravessa toda a experiência da criança. Ele aparece nas propostas planejadas pelos professores, carregadas de intencionalidade sobre o que se pretende estimular, na construção e reinvenção de espaços que convidam as crianças a interagir, explorar e pesquisar. Também está nas brincadeiras simbólicas, nas experiências com água, areia, tinta, construção, música e movimento, assim como nas interações espontâneas entre as crianças. Entendemos que a criança aprende quando participa ativamente da experiência e atribui sentido ao que vive”, conta a diretora pedagógica do Programa Bilíngue da Escola Móbile.

Os riscos do excesso de telas e o papel da família
Maria Cardoso lista os impactos já comprovados do uso excessivo de dispositivos na infância: dificuldade de concentração, atraso de linguagem, comprometimento das funções executivas (memória, planejamento e raciocínio lógico), baixa tolerância à frustração, ansiedade, isolamento social, problemas de saúde ocular e distúrbios do sono. A educadora também aponta que o cérebro infantil, por sua alta neuroplasticidade, é especialmente vulnerável. “O excesso de estímulos digitais rápidos e passivos pode viciar o cérebro infantil em recompensas imediatas de dopamina”, diz a diretora pedagógica da Educação Infantil do Programa Regular da Escola Móbile. Sobre o possível equilíbrio entre tecnologia e brincadeira, ela explica que, até 3 anos de idade, as crianças não deveriam ser expostas às telas, por uma questão de desenvolvimento cerebral. A partir dos 4 anos, a tela deve ser encarada como ferramenta de criação e aprendizado e nunca como um instrumento de consumo passivo. “Horários de refeições e de dormir (até uma hora antes) devem ser livres de telas. A família também precisa estar atenta, pois a criança segue modelos familiares. Se todos estão da casa estão utilizando celulares, ela também vai querer, mas se todos se sentarem para jogar ou brincar, a criança certamente vai se engajar”, explica Maria.

Já Tatiana Almendra reforça o custo direto quando a brincadeira perde espaço. “A infância precisa de tempo, corpo e experiência concreta. Quando o tempo de tela rouba o tempo da brincadeira, estamos certamente privando o desenvolvimento pleno da infância”, conclui.