Entre a escola, a família e a sociedade: como enfrentar o bullying?

Por Esther Carvalho*

O Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, celebrado no dia 7 de abril, costuma reforçar campanhas educativas e debates dentro das escolas, mas a data também exige uma reflexão mais ampla: o bullying não nasce no ambiente escolar. Ele é a expressão de um fenômeno social mais profundo, que atravessa relações culturais, familiares e digitais, e revela desafios coletivos de lidar com diferenças, limites e convivência.

A escola aparece frequentemente como palco dessas situações porque concentra a convivência intensa entre crianças e adolescentes, e, também, famílias. No entanto, os comportamentos que ali se manifestam são, em grande parte, aprendidos e reproduzidos a partir de referências sociais mais amplas. A intolerância e a naturalização da agressividade – e a sua banalização – não são exclusivas do universo escolar, refletem padrões presentes dentro da sociedade.

Em um contexto marcado pela cultura da exposição e pela busca constante por validação nas redes digitais, constranger o outro deixou, muitas vezes, de ser percebido como violência. Comentários ofensivos, exclusões sociais e brincadeiras que ultrapassam limites passam a ser normalizados, dificultando a identificação do bullying e retardando intervenções.

Quando a violência ganha escala digital
O avanço das tecnologias digitais transformou profundamente a dinâmica do bullying. O cyberbullying amplia o alcance das agressões, tornando-as públicas, permanentes e difíceis de controlar. Diferentemente do bullying presencial, que se limita a um espaço e tempo específicos, a violência on-line acompanha a vítima continuamente.

Com a inteligência artificial, esse cenário se torna ainda mais complexo. Ferramentas capazes de manipular imagens, gerar áudios falsos ou fabricar conteúdos aumentam os ataques e dificultam a identificação dos responsáveis. Perfis anônimos, disseminação rápida de boatos e exposição indevida de imagens ampliam o impacto psicológico das agressões e desafiam escolas, famílias e autoridades. A tecnologia, contudo, não cria o problema, ela amplifica uma violência que já existe nas relações humanas.

Responsabilidade compartilhada: escola, família e sociedade
Diante desse cenário, torna-se evidente que o enfrentamento do bullying não pode depender apenas de regras escolares ou medidas disciplinares. À escola cabe sua função educativa: promover a convivência, desenvolver a empatia, conduzir a mediação de conflitos e ajudar crianças e jovens a compreender as consequências de suas ações. Sanções são entendidas como elementos formativos, consequências das escolhas. Conflitos fazem parte do processo de socialização; bullying, não.

A família desempenha papel essencial ao acompanhar a vida digital das crianças e adolescentes, estabelecer limites e manter diálogo constante sobre respeito e responsabilidade. A presença e o exemplo dos adultos continuam sendo alguns dos principais fatores de proteção contra situações de violência.

Já a sociedade precisa avançar em políticas públicas, educação digital e responsabilização das plataformas tecnológicas. Combater o bullying também significa construir um ambiente social que não normalize a violência nem transforme a humilhação em entretenimento.

Um desafio educativo e humano
Apesar das mudanças tecnológicas, a raiz do bullying permanece a mesma: a dificuldade de reconhecer o outro em sua dignidade. Por isso, a superação dessa questão exige mais do que punições pontuais. Passa pela formação ética, pelo fortalecimento socioemocional e pela construção de vínculos entre escola, família e comunidade.

O Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola deve servir, portanto, como um convite à ação coletiva. Educar para a convivência é tarefa da escola; formar para a responsabilidade é papel da família; garantir uma cultura de respeito é compromisso de toda a sociedade.

Combater o bullying, em última análise, é reaprender a conviver em um mundo cada vez mais conectado e, justamente por isso, mais dependente da empatia e do reconhecimento do outro. Sigamos nessa empreitada!

*Esther Carvalho é ex-aluna e diretora-geral do Colégio Rio Branco, doutoranda em Tecnologias da Inteligência e Design Digital e mestre em Currículo e Tecnologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e especialista em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação.